Professor e estudante envolvidos procuram quem possa ceder um veículo para teste de desempenho em condições controladas. Estudos em torno da tecnologia estão cada vez mais presentes no Brasil

 


Pesquisa na Engenharia Civil investiga a relação entre a qualidade do asfalto e a autonomia de carros elétricos. Foto: Beto Monteiro/Secom UnB

 

Ian Moreira, aluno da graduação em Engenharia Civil da UnB, aposta na utilidade do carro elétrico para o Brasil. Para ele, o que falta é aumentar a autonomia da bateria, um calcanhar de aquiles dos veículos desenvolvidos atualmente. Ele também entende que, para viabilizar o uso do carro elétrico em grande escala, é necessário que os veículos apresentem melhor desempenho nas estradas. Unindo as duas premissas, o estudante elabora, junto com o orientador Luiz Guilherme Rodrigues, uma pesquisa para seu trabalho de conclusão de curso que objetiva medir a autonomia da bateria em relação à qualidade do asfalto.

 

O trabalho propõe uma abordagem inspirada em um modelo oriundo de pesquisa nacional realizada durante a década de 1980, em parceria com o Banco Mundial: o HDM (Highway Development and Management System). Nela, foi feita uma comparação entre a qualidade das rodovias e o consumo de combustível nos veículos. A conclusão é conhecida: quanto pior são as estradas (com mais buracos e irregularidades e, dessa forma, mais trepidação), maior o gasto de combustível para realizar o deslocamento. E quanto mais consumo de combustível, maior a emissão de gás carbônico, tema que se tornou cada vez mais sensível com o passar dos anos.

 

A ideia de Ian Moreira e de Luiz Guilherme é realizar algo semelhante. Eles querem medir o impacto da qualidade do asfalto das rodovias federais no gasto de bateria dos carros elétricos, de forma a medir a autonomia dos veículos em diferentes níveis de dificuldade. “A nossa hipótese é que, quanto mais irregular for o pavimento, maior o consumo de bateria e, assim, menor a autonomia do carro”, comenta o professor. A suspeita dos pesquisadores é de que o melhor caminho seja melhorar a qualidade das rodovias do país e que isso precisaria ser feito antes mesmo da produção em série dos carros.

 

A intenção é fazer testes de desempenho do automóvel em um lugar como o Autódromo Internacional Nelson Piquet, em Brasília, onde seria possível criar artificialmente obstáculos encontrados nas rodovias federais. A expectativa é que o local possa propiciar as condições ideais para a pesquisa. “Precisamos de um trecho isolado, em dias sem chuva e sem ventos”, detalha o professor Luiz Guilherme Rodrigues. Dessa forma, seriam preservadas as condições de estudo da relação entre o consumo da bateria e a irregularidade longitudinal de pavimentos. 

Estudante de Engenharia, Ian Moreira está à procura de parceiros para finalizar pesquisa sobre autonomia de carros elétricos. Foto: Amália Gonçalves/Secom UnB

 

Para conseguir tirar os planos do papel, a dupla está procurando parcerias: eles já têm a pesquisa, a proposta metodológica e a hipótese. Só falta mesmo o carro elétrico puro para os testes. “Acredito que precisaremos de uns cinco dias para fazer todos os testes”, projeta o professor.

 

No mês de março, a Faculdade UnB Gama (FGA) recebeu um carro híbrido para desenvolver estudos, mas o veículo não atende às necessidades desta pesquisa. “O carro híbrido alterna entre gasolina e energia elétrica enquanto desenvolve o percurso. Por isso não conseguiríamos medir a autonomia da bateria do modo que propomos”, explica o estudante.

 

Interessados em ajudar podem entrar em contato com o professor Luiz Guilherme Rodrigues, pelo e-mail: Este endereço de email está sendo protegido de spambots. Você precisa do JavaScript ativado para vê-lo..

 

QUALIDADE  Um dos maiores problemas das rodovias federais, na avaliação do professor, é a falta de manutenção das vias. De acordo com ele, é necessário também aprimorar os métodos de dimensionamento do pavimento, de forma que seja mais resistente.

 

A qualidade do asfalto é medida pelo índice de irregularidade longitudinal (IRI), sigla derivada do inglês International Roughness Index. Segundo o professor, uma rodovia avaliada como ruim ou péssima apresenta IRI acima de 3,5. Dados do Departamento Nacional de Infraestrutura de Transportes (DNIT) apontam que 22% das rodovias federais brasileiras em que não há cobrança de pedágio estariam nessa condição.

 

As rodovias federais pedagiadas se saem melhor na avaliação, pois as concessionárias são obrigadas a manter as estradas em um estado que não ultrapasse um IRI de 2,7. A média do IRI das rodovias federais não pedagiadas é de 3,0.

 

PERTINÊNCIA  Luiz Guilherme Rodrigues destaca que a pesquisa estabelece relação com os compromissos internacionais firmados pelo Brasil no contexto da Conferência das Nações Unidas sobre as Mudanças Climáticas de 2015, também conhecida como COP 21. Nos termos do acordo assinado ali, haveria um esforço extra dos países para lidar com os impactos decorrentes das mudanças climáticas. 

Professor de Engenharia Civil na UnB, Luiz Guilherme Rodrigues acredita que as estradas do país precisam receber atenção especial antes da popularização dos carros elétricos. Foto: Amália Gonçalves/Secom UnB

 

O Brasil  comprometeu-se a reduzir, até 2025, as emissões de gases de efeito estufa em 37% abaixo dos níveis de 2005. Para 2030, a meta seria reduzir as emissões em 43% abaixo dos níveis de 2005. O professor explica que o país firmou o acordo em um momento em que as emissões pareciam reduzíveis, mas o processo sofreu desaceleração. “Estamos muito perto de não cumprir o acordo”, resume.

 

O setor de transportes no Brasil é responsável por 20% da emissão de gás carbônico. O país é cortado por 75 mil quilômetros de rodovias federais, sendo que 10 mil são concedidos a concessionárias de pedágio.

 

É nesse cenário que entra o carro elétrico. Com ele, não há emissão de gás carbônico, oriundo da queima de combustível usado para movimentar os veículos. “O carro elétrico é a melhor opção para reduzir as emissões nas estradas”, defende Rodrigues. Ian concorda, e aposta que a matriz veicular no Brasil tende a mudar nos próximos anos.

 

 

 

 

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