Há 22 anos, o Piratas do Cerrado representa a UnB em campeonatos regionais e nacionais

Isabela Oliveira/Agência Facto

 

Exatos sete dias foi o tempo gasto pela equipe Piratas do Cerrado para construir um carro baja do zero. Os estudantes de Engenharia Mecânica da UnB, os bajeiros, como são chamados, trabalham desde o planejamento até a solda de materiais para participar de competições regionais e nacionais. 

 

Bajas são veículos feitos normalmente por estudantes de Engenharia para participar de competições. A palavra tem origem no nome de um deserto nos Estados Unidos, onde acontecem compeonatos off-road com este tipo de carro de corrida. A norte-americana Associação de Engenheiros de Mobilidade (SAE, na sigla em inglês) transformou as competições que ocorrem no deserto de Baja em um projeto estudantil para que alunos de Engenharia pudessem construir e projetar carros na faculdade. Surgia a competição denominada Baja-SAE. Em 1996, a modalidade chegou ao Brasil e, um ano depois, surgiu o Piratas do Cerrado.

 

O CARRO – O carro baja feito na UnB é um veículo monoposto (só comporta uma pessoa) para uso off-road (fora-de-estrada), ou seja, para locais desprovidos de pistas pavimentadas. É um carro leve e pequeno: pesa apenas 170kg, com um entre-eixo (distância entre os centros das rodas dianteira e traseira) de 1390mm e bitola (distância entre as rodas esquerda e direita de um mesmo eixo) de 1240mm. Possui tração traseira (rodas traseiras são as motrizes), com motor de 10 cv (cavalos) de potência e transmissão CVT (Transmissão Continuamente Variável, oferece aceleração contínua, sem trancos).

Matheus Siqueira, estudante de Engenharia Mecânica, faz regulagens no freio do carro da equipe. Foto: Isabela Oliveira/Agência Facto

 

O veículo tem uma caixa de redução, o que o faz alcançar até 55km/h. A suspensão traseira e dianteira utiliza duplo A e um amortecedor pneumático, que ajusta sua rigidez por meio da pressão. O chassi, ou seja, a parte que sustenta o carro, é feito de estrutura tubular. Além disso, o carro possui freio a disco independentes para a traseira e dianteira. O carro tem vida útil de apenas dois anos, devido à estrutura de seu chassi.  

 

Os treinos são feitos geralmente quando o carro está apto e toda a equipe pode se reunir em uma chácara perto de Brasília. Testes pequenos com obstáculos ou rampas são feitos dentro da Universidade. 

 

COMPETIÇÕES – A primeira conquista do Piratas do Cerrado veio em 2007, com o primeiro lugar no campeonato regional do Nordeste. O Centro-Oeste possui apenas quatro equipes de baja e, por serem poucos grupos, não há disputa regional por aqui. 

 

Com 22 anos de existência, o Piratas conquistou a melhor colocação nacional da história do time em fevereiro deste ano no último campeonato nacional: ficaram em 14º lugar dentre 87 equipes. As três melhores do campeonato nacional se classificam para o mundial e competem com os primeiros colocados de países como Estados Unidos, Índia e México.

 

Nas competições, existem provas de segurança (teste para averiguar a adequação do veículo), estática (pequenas provas de resistência), dinâmica (tração, velocidade, obstáculo e rampa) e enduro (prova com duração de quatro horas feita em um circuito para literalmente destruir o carro). “Se quebrar e o carro não conseguir voltar ao box para consertar, sai da prova. Se conseguir voltar, a gente pode consertar e ele pode voltar para a pista”, conta Pedro Victor de Alencar, integrante do Piratas, sobre as dificuldades da prova de enduro. Ele é capitão de Projetos e vice-capitão da equipe. 

 

Pouquíssimos carros conseguem aguentar a prova até o final, pois a maioria acaba quebrando. No último campeonato nacional, apenas 20 grupos (dentre 87 equipes) conseguiram terminar a prova de enduro. Existe também um mecânico de pista, para ajudar em pequenos reparos durante essa etapa.

 

Além disso, a organização é bem rígida quanto à segurança das provas. “O regulamento pede algumas coisas dentro da gaiola para garantir a segurança e o conforto”, conta Pedro Gomes, capitão da equipe. Quando acontece algum acidente, as normas são mudadas para garantir que ninguém vai se machucar na próxima competição.

 

No final de agosto, em Piracicaba (SP), eles enfrentaram a etapa regional e esperavam ficar entre os 10 primeiros colocados. Apesar das expectativas altas, a equipe terminou a competição em 12º lugar. “Não foi fácil, mas as pessoas ajudam e o resultado final faz valer a pena”, contou o capitão Pedro Gomes.  

 

PLANEJAMENTO  A construção do carro começa a partir de um projeto no computador. Uma vez pronto, o plano sai das telas e inicia-se a produção dos gabaritos, que são as estruturas que vão garantir os pontos corretos da gaiola do carro. Depois, começa o processo de soldagem. “A construção é a parte mais simples. Muita coisa pode dar errado, mas não é necessariamente difícil”, conta Pedro Victor. 

 

A cada competição, o carro ganha um nome diferente. O do último campeonato foi Guará. O design representa a identidade do Piratas e é inspirado no Cerrado: possui as cores do lobo-guará, desenhos de capivara (animal típico do bioma) e de alguns animais em extinção como o próprio lobo, a arara-azul e o tamanduá-bandeira. O carro tem formas geométricas inspiradas em mosaicos de vidro para representar a fragilidade e complexidade da vegetação local. O design foi feito pelo ex-membro Elias Matheus.

 

PILOTOS  Para dar rotatividade ao projeto e permitir que todos tenham oportunidade de participar, os pilotos são trocados anualmente ou a cada competição. O antigo representante Alex Silva acredita que “ser piloto é uma das maiores responsabilidades”. 

 

O novo motorista do Piratas, Gabriel Luna, sente a confiança que a equipe deposita nele e compartilha sua experiência: “Em geral, é fácil dirigir. O mais desgastante é se machucar: cair e passar por troncos, por exemplo”. O papel do motorista é fundamental, pois ele precisa ter bastante conhecimento do carro e da competição. Treinamentos são realizados constantemente assim que o veículo está apto a rodar.

  

Os 15 membros atuais dividem-se em áreas, mas, às vezes, uma pessoa desempenha várias funções. “Toda a ideia da construção é realizada por todos”, explica Pedro Victor. As áreas são: Suspensão e Direção, Powertrain (transmissão de força), Freio, Eletrônica, Estrutura, Organização, Divulgação e Gestão de Pessoas.

Logo do grupo na entrada da sala de reuniões: espaço fica na Unidade de Laboratórios de Ensino de Graduação (Uleg). Foto:Isabela Oliveira/Agência Facto

 

Marisa Vasquez é a integrante mais antiga do Piratas do Cerrado, chamada de membro sênior. “Para não ter perda de conhecimento durante a troca de gerações, criamos o membro sênior. Ajudo na decisão do projeto, nos estudos e passo todas as informações que eu sei”, completa a estudante. 

 

A equipe costuma abrir espaço para alunos de outras Engenharias, mas também de Publicidade e Propaganda, para atuar na área de marketing da equipe ou na criação do design do carro. O processo seletivo costuma ser anual, mas, este ano, as inscrições foram abertas duas vezes. 

 

O projeto se sustenta por meio da vendas de quitutes na Faculdade de Tecnologia (FT), vaquinhas on-line e patrocínio. Algumas empresas têm programas de apoio financeiro voltados exclusivamente para projetos de competição, como os de baja. 

 

NA PRÁTICA – As equipes de baja têm a possibilidade de aprimorar o conhecimento que aprendem no curso na prática. A principal motivação é a oportunidade de desenvolver novas habilidades. “A gente cresce como pessoa e engenheiro”, resume Marisa Vasquez. Os participantes dedicam-se ao projeto normalmente aos sábados e em alguns dias da semana, principalmente para reuniões das áreas.

 

Não há uma explicação certa para o porquê do nome do grupo ser Piratas do Cerrado. Pode ser pelo fato de que o bajeiro “aceita qualquer desafio e consegue passar por ele, mesmo que seja difícil”, nas palavras do grupo. Mas os atuais integrantes acreditam que o significado vai além disso. Os estudantes contam que uma das principais habilidades desenvolvidas no projeto é lidar com problemas e situações inesperadas. “Quem faz baja, é bajeiro. O bajeiro é uma pessoa resiliente, que faz as coisas apesar da frustração e supera todos os obstáculos”, explica a membra sênior. Bem preparados, já começaram o planejamento para as competições do próximo ano. 

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