A localização da colheita do lúpulo e as características sensoriais de cervejas produzidas com o ingrediente podem ser mais facilmente identificadas com nova ferramenta desenvolvida por pesquisadores da Universidade de Brasília e da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC). O dispositivo consiste em roda sensorial com seis níveis de informação, apoiada por dados presentes no e-book Cervejas Lupuladas: Perfil Sensorial, Compostos Aromáticos e Inovações Tecnológicas. O recurso, disponível de graça desde 2025, tende a simplificar a atuação de produtores, sommeliers e outros profissionais do setor.
A roda sensorial facilita o treinamento de paladares, a padronização de avaliações e o desenvolvimento de receitas, aspectos indispensáveis à indústria cervejeira, em especial à de produção artesanal. O lúpulo é a planta que contribui para o amargor típico de cervejas e, como evidencia a pesquisa, é a principal fonte de compostos aromáticos da bebida. Mirceno, linalol e geraniol são algumas dessas substâncias orgânicas que, neste caso, conferem notas cítricas, florais, herbais ou frutadas ao produto.
“A proposta era criar um material que pudesse auxiliar em análises rotineiras das cervejas lupuladas e, então, dar um direcionamento e alguma segurança maior na produção da cerveja e no controle de qualidade”, explica a professora do Instituto de Química (IQ) e supervisora do estudo na UnB, Grace Ghesti. Ela trabalhou em parceria com as pesquisadoras Amanda Reitenbach e Vivian Burin, da UFSC, e com o supervisor industrial Cláudio Ebert, da Kairós Cervejaria.
A professora informa que a roda sensorial teve como base os perfis do lúpulo, de acordo com a estrutura química, apontando a origem e as associações a aromas. Um aroma herbal, por exemplo, remete a grama, chá e madeira, sensações decorrentes de compostos como mirceno e β-caryophyllene. Na roda, é possível associar esse sentido à origem europeia, ao grupo de aromas nobres e aos aromas de ervas como alecrim, hortelã e chá verde.
O acesso às informações é apontado como facilitador ao setor produtivo, que nem sempre dispõe de equipamentos robustos como cromatógrafos, utilizados para separar, identificar e quantificar componentes de misturas em laboratórios. “Para não ter a necessidade de adquirir esses cromatógrafos, a gente elaborou essas rodas sensoriais para que uma pessoa ou um produtor possa ter uma ideia do perfil sensorial do lúpulo”, diz Ghesti, que lidera o Laboratório de Bioprocessos Cervejeiros e Catálise Aplicada a Energias Renováveis (Labccerva/IQ).
O trabalho resultou também na criação de marca registrada em cotitularidade. A cooperação multidisciplinar vem desde 2023 e tem financiamento da Fundação de Amparo à Pesquisa e Inovação do Estado de Santa Catarina (Fapesc).
INDÚSTRIA E LUPULADOS – De acordo com o Anuário da Cerveja 2025, a produção de cerveja no Brasil foi superior a 14,5 bilhões de litros em 2024. O país é o terceiro maior produtor do mundo, mas importa mais de 90% do lúpulo utilizado.
Além das cervejas, o ingrediente também está presente em bebidas como chás e kombuchas. O Mapa do Lúpulo Brasileiro, produzido pela Associação Brasileira de Produtores de Lúpulo (Aprolúpulo), indica que, em 2024, havia 109 produtores no país. A produção naquele ano foi de 81,3 toneladas em pouco mais de 95 hectares de terras cultivadas.
Trecho do e-book da pesquisa entre UnB e UFSC indica que o cultivo de lúpulo no Brasil vem "demonstrando adaptabilidade agronômica e potencial para atender à demanda da indústria cervejeira artesanal e industrial”. “Os dados apontam para um cenário promissor e competitivo, desde que acompanhado por políticas de fomento, estímulo à pesquisa e valorização do terroir brasileiro”, conclui o trecho dedicado à caracterização e às aplicações tecnológicas na produção nacional.