Há robustos motivos econômicos e sociais para reverter a degradação do Cerrado, segundo maior bioma do Brasil. Estudo liderado pela professora Fátima de Souza Freire, titular do Departamento de Ciências Contábeis e Atuariais (CCA/Face), aponta, entre outros aspectos, a possibilidade de geração de receitas a partir do investimento público qualificado na restauração do bioma, expandido a pauta para além da questão ambiental. Finalizada no ano passado, a investigação mostra que o valor de venda dos créditos de carbono podem superar em até três vezes os custos para obtê-los.
A pesquisa avalia os cenários das quatro unidades federativas do Centro-Oeste e traz dados de desmatamento e de gastos públicos realizados para combatê-lo entre 2001 e 2024. O estudo contextualiza a economia de carbono, que precifica a emissão de gases responsáveis pelo efeito estufa. O valor econômico de créditos tem como referência o dióxido de carbono (CO₂) e considera os custos sociais e ambientais das emissões. Empresas de setores poluentes, corporações globais comprometidas com questões climáticas e governos nacionais estão entre os principais clientes desse mercado.
O valor-base do crédito de carbono no estudo é de R$ 220 por tonelada de CO₂ (ou equivalente). A produtividade considerada é de 14 toneladas de CO₂ por hectare/ano, com horizonte de 30 anos. Na projeção apurada, o custo médio para a neutralização desse poluente, o denominado sequestro de carbono, varia entre R$ 70 e R$ 88 por tonelada. O retorno – payback simples – dos investimentos seria obtido integralmente entre 9,5 e 12 anos.
A constatação é a de que cada hectare restaurado pode sequestrar cerca de 336 toneladas de CO₂ (ou equivalente) em 30 anos. Esse dado já considera o buffer de 20%, uma margem para possíveis perdas de permanência do carbono sequestrado. Outro achado do estudo é o de que o aumento da restauração na ordem de 10 para 50% multiplicaria receitas e benefícios climáticos sem alterar substancialmente os indicadores por tonelada. Ou seja, a escala não impactaria o valor do crédito.
O resultado que mais chamou a atenção da responsável pela pesquisa foi o preço do carbono não despontar como o principal obstáculo em um “cenário favorável” para a restauração do Cerrado. “O grande desafio é governança. Precisamos de viveiros, mão de obra capacitada, financiamento para os primeiros anos, monitoramento confiável, segurança jurídica, articulação entre municípios e estados e capacidade para executar projetos durante décadas”, afirma Fátima de Souza Freire.
“Isso muda bastante a discussão. O Cerrado tem potencial econômico e climático. Precisamos agora construir a capacidade institucional para transformar esse potencial em hectares efetivamente restaurados”, completa ela, que produziu o estudo em parceria com a pesquisadora e egressa do doutorado no Programa de Pós-Graduação em Contabilidade (PPGCont) Francielle Voltarelli.
CICLO VIRTUOSO E INVESTIMENTO – A desejável recuperação do bioma, que ocupa cerca de 24% do território nacional, teria como “capital semente” o gasto público ambiental qualificado. “O Estado investe em capacidade institucional, fiscalização, prevenção de incêndios, viveiros, restauração, monitoramento e sistemas de medição e verificação. Isso melhora a qualidade e a credibilidade dos projetos ambientais e pode ampliar sua capacidade de gerar receitas, inclusive por meio do mercado de carbono”, explica a professora da Universidade de Brasília.
Esse é o ponto de partida para um ciclo virtuoso, seguido por aumento da capacidade ambiental, projetos para mais integridade, geração de receitas, reinvestimento e, enfim, a redução do desmatamento. “Não é apenas o volume de dinheiro que importa. Importam a regularidade, a qualidade do gasto e a capacidade técnica de transformar orçamento em resultado ambiental”, destaca Freire.
Ela reforça a necessidade de deixar de se analisar o Cerrado apenas como área de proteção e passar a reconhecê-lo “como um patrimônio natural que produz valor para a sociedade”. Além do plantio de árvores, a restauração defendida inclui pontos como a recuperação da água, a criação de empregos, a geração de renda e a diminuição de custos futuros com a mitigação dos efeitos da degradação.
“Estamos diante de uma janela de oportunidade. A tecnologia existe, o mercado de carbono está sendo estruturado no Brasil e os números indicam viabilidade. O desafio agora é transformar potencial em escala. E isso exige governança, financiamento e continuidade das políticas públicas”, conclui.
RECONHECIMENTO – Intitulada Quanto Custa Restaurar o Cerrado? Uma Avaliação de Viabilidade e Impacto Climático, a pesquisa conquistou a segunda colocação no IX Prêmio Serviço Florestal Brasileiro em Estudos de Economia e Mercado Florestal, concedido no fim de 2025 e promovido com o apoio do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq), da Confederação Nacional da Indústria (CNI) e do Ministério do Meio Ambiente e Mudança do Clima (MMA).
A satisfação pelo resultado veio acompanhada da constatação de que situações ambientais podem ser analisadas do ponto de vista econômico e do reforço do papel da universidade pública na formulação de políticas concretas. “A pesquisa mostra que padrões científicos, transparência dos dados e formação de capacidades podem reduzir incertezas e ajudar a transformar o potencial econômico do Cerrado em restauração efetiva”, avalia Fátima de Souza Freire.