A comunidade da Universidade de Brasília avalia que o uso de patinetes elétricos é uma opção relevante como complemento ao transporte público. A percepção é revelada por estudo produzido pelo Grupo de Pesquisa Comportamento em Transportes e Novas Tecnologias (GCTNT), do Programa de Pós-Graduação em Transportes (PPGT/ENC/FT), que entrevistou 317 pessoas, em 2025, no campus Darcy Ribeiro, Asa Norte.
Para 49,2% dos respondentes, o veículo é apontado como adequado para deslocamentos curtíssimos ou curtos (até 1 km). Outros 38,5% entendem que o modal pode ser apropriado mesmo para trajetos de média distância (entre 1 e 2 km).
Embora reconheçam a utilidade dos patinetes, apenas 12,6% dos entrevistados dizem utilizá-los no campus. As vantagens apontadas pelos usuários incluem rapidez, conveniência e conforto nos deslocamentos, realizados principalmente para atividades acadêmicas. As vias mais consideradas para utilização são ciclofaixas/ciclovias, calçadas e estacionamentos. Entre os aspectos que inibem o interesse de quem não utiliza esses veículos estão os custos de uso, a insegurança nas vias e a falta de infraestrutura.
O coordenador da pesquisa, professor Pastor Willy Gonzales Taco, informa que o estudo foi iniciado em contexto em que patinetes disponíveis para aluguel rápido na cidade passaram a também fazer parte da realidade no campus. “A pesquisa foi feita para verificar a propensão do uso, a percepção da segurança e aspectos relativos à prestação do serviço”, explica o professor sobre o levantamento, que indica percepção semelhante entre os desafios dos utilizadores do veículo no campus e nas demais vias da cidade.
“Percebemos que algumas pessoas que usavam o carro também passaram a optar pelo patinete, o que é positivo do ponto de vista da mobilidade urbana sustentável”, diz o professor. Ele reforça que o dispositivo elétrico se soma às bicicletas compartilhadas como opção de micromobilidade. A criação de um programa institucional de suporte a usuários, que inclua orientações sobre segurança e descontos para quem usa com frequência, é apontada como uma possibilidade de estímulo ao uso consciente dos patinetes.
Taco também analisa que os utilizadores desses veículos tendem a tomar decisões como pedestres, optando por atalhos que nem sempre coincidem com a disponibilidade de ciclovias ou calçadas apropriadas. “Aí é que está o problema. Os usuários no Darcy Ribeiro atravessam áreas com pavimento rígido ou pavimento flexível e também aqueles ‘caminhos de rato’”, explica ele, em referência a caminhos de terra abertos em áreas verdes. A presença de obstáculos, a instabilidade e a trepidação nessas superfícies aumentam a probabilidade de acidentes.
RISCOS E ESTRUTURA – A inadequação de áreas de circulação e a falta de locais próprios para estacionar os patinetes aparecem entre as queixas mais frequentes de usuários, que relatam a ocorrência de acidentes, causados em maior parte por escorregamentos, colisões e quedas. A maioria dos entrevistados também alegou desconhecer os limites de velocidade permitidos e a forma de operar o veículo antes da primeira viagem. Apenas 17,5% disseram considerar o patinete como veículo “muito seguro”.
“Com reparos viários, campanhas educativas sobre segurança e organização dos pontos de estacionamento, o patinete se consolida como uma alternativa segura e eficiente para a mobilidade no campus”, avalia a estudante de Engenharia Ambiental e pesquisadora Nathalia Silva. Entre as intervenções estruturais, ela aponta a necessidade de recapeamento de vias, eliminação de degraus e expansão de ciclovias. Quanto às campanhas, destaca o uso de capacete e respeito às regras de trânsito.
A estudante destaca ainda “a relevância de integrar o patinete ao ônibus circular interno como um conector rápido para finalizar trajetos com eficiência” e a necessidade de manutenção dos equipamentos por parte das empresas operadoras.
MÉTODOS E REPERCUSSÃO – O questionário presencial aplicado na análise das percepções e dos fatores de influência entre usuários e não usuários contou com 64 perguntas, estruturadas após revisão bibliográfica na base de dados Scopus. “Patinetes elétricos”, “micromobilidade”, “infraestrutura” e “transporte” foram os termos associados na fase de elaboração.
Os dados qualitativos e quantitativos foram obtidos e tratados por meio do Observatório da Mobilidade Segura, Saudável e Sustentável (Mob3S), voltado à proposição de práticas e ações para deslocamentos seguros no campus Darcy Ribeiro, e fizeram parte de projeto de extensão da UnB. “Foi produzido um mapa espacial para representar os espaços e áreas comuns da Universidade, além de um diagrama de Sankey e um gráfico boxplot, que contribuíram para a visualização das relações entre variáveis e para a análise da percepção dos participantes”, descreve trecho da pesquisa.
O diagrama de Sankey é comumente adotado para mapeamento de processos e visualização de fluxos; já o gráfico boxplot é uma ferramenta visual estatística usada para representar a distribuição de um conjunto de dados.
Com o título Percepções e Riscos à Circulação de Patinetes em um Campus Universitário, o estudo foi apresentado no fim de 2025, em Goiânia (GO), no Congresso de Pesquisa e Ensino em Transportes (ANPET), o maior evento acadêmico do setor. Também assinam a publicação os estudantes do Departamento de Engenharia Civil e Ambiental Marcos Oliveira e Pedro Belchior e a professora e pesquisadora do Programa de Pós-Graduação em Transportes Zuleide Oliveira Feitosa.