Pesquisa de laboratório da UnB comparou como moléculas secretadas pelos tecidos adiposos branco e marrom impactam as células tumorais

Júlio Minasi/ Secom UnB

 

Uma pesquisa do Instituto de Ciências Biológicas (IB) da Universidade de Brasília demonstra que o tecido adiposo marrom (gordura marrom) pode exercer função de controlar o crescimento das células de câncer de mama em experimentos in vitro. Já o tecido adiposo branco exibe características pró-tumorais, como o acúmulo de gotículas lipídicas nas células tumorais. O estudo foi publicado na revista Cancer & Metabolism, da editora Springer Nature.

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A pesquisa começou a ser desenvolvida em 2018, no Laboratório de Imunologia e Inflamação (Limi/IB/UnB), que já tem conhecimento consolidado em tecido adiposo. O objetivo era entender como as gorduras branca e marrom atuavam diante do câncer de mama. A coordenadora da pesquisa e professora do IB, Kelly Grace Magalhães, explica que o tecido adiposo, de forma geral, é um órgão endócrino, que não tem como função só fazer a reserva energética, mas também secretar moléculas na corrente sanguínea.

No corpo humano, a gordura branca é a mais comum e está localizada principalmente na região visceral e abdominal. Ela envolve vários órgãos e tem função de reserva energética. A gordura marrom está situada ao longo da coluna vertebral e da região supraescapular e é responsável pela termogênese (geração do calor). Esta, por sua vez, é encontrada em menor quantidade no corpo e é ativada quando se faz exercício físico e quando se sente frio, mas, ao longo dos anos, ela vai se perdendo no organismo.

Os pesquisadores do Limi pegaram amostras dos dois tecidos em fêmeas de camundongos de laboratório e coletaram moléculas que os tecidos secretam no meio de cultura (meio condicionado), livre de células. Depois, esse componente foi colocado no cultivo de células de câncer de mama. “Observamos que as células tumorais colocadas em contato com a secreção do tecido adiposo branco proliferaram muito mais. Elas se dividiram mais, ou seja, elas ficaram mais agressivas. Aconteceu o contrário com as que estavam em contato com o tecido adiposo marrom. Esse induziu a morte das células e diminuiu a divisão celular", analisa a professora. "Isso ocorreu em níveis estatisticamente muito significativos, praticamente reduziu pela metade a sobrevivência das células cancerígenas.”

A equipe foi além desse resultado. Buscou ver se era possível potencializar ainda mais a função antitumoral da gordura marrom, ativando-a pelo frio. Os pesquisadores submeteram as fêmeas de camundongos a uma temperatura de 4°C, por três semanas, e grupos de controle a 25°C. Ambos foram expostos a ciclos de iluminação e escuridão e tiveram livre acesso à água e ração. Os procedimentos foram realizados com aprovação do Comitê de Ética no Uso de Animais do IB e seguindo protocolos para pesquisas com animais.

Professora Kelly Grace coordena estudos sobre câncer no Limi. Foto: Arquivo pessoal

 

“Constatamos que a temperatura baixa tornou as moléculas secretadas pela gordura marrom ainda mais letal para as células de câncer de mama e que ela bloqueia ainda mais a proliferação da divisão celular”, relata a coordenadora do Limi.

O grupo, agora, trabalha no isolamento das moléculas bioativas secretadas pela gordura marrom para o desenvolvimento de um novo fármaco adjuvante no tratamento da doença. “Estamos isolando esses componentes para utilizar biotecnologicamente como um produto de inovação terapêutico para ajudar no tratamento do câncer de mama. Esta é a fase atual da nossa pesquisa.”

Diante desses achados, a cientista afirma que o estudo traz um alerta para mulheres com obesidade, pois nelas há maior proporção de tecido adiposo branco na região mamária, o que pode criar um microambiente favorável a uma progressão mais agressiva do câncer de mama, caso ele venha a se desenvolver.

Apesar dos avanços e relevância da pesquisa, Kelly Grace ressalta a escassez de financiamento como um grande desafio para o estudo. Ela destaca a necessidade de mais fomento público e, principalmente, de parcerias com o setor privado para dar continuidade aos testes e acelerar a chegada dos resultados à sociedade.

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OUTUBRO ROSA – Considerando que outubro é o mês de alerta sobre prevenção e diagnóstico do câncer de mama e do colo do útero, vale ressaltar que a pesquisa também traz contribuições para o campo preventivo. Segundo a professora, a ativação do tecido adiposo marrom pode ser estimulada no dia a dia por meio de exercícios físicos, exposição ao frio e consumo de alimentos ricos em resveratrol, como uvas roxas e pretas e chocolate amargo – o último, desde que com moderação.

“Se você tiver atividades comportamentais, incluindo hábitos alimentares, que ativam o tecido adiposo marrom constantemente, você vai gerar no seu corpo a produção ativa desse tecido continuamente, propiciando com que ele fique secretando ali na sua corrente sanguínea essas moléculas antitumorais. Em teoria, você está diminuindo as chances de ter um desenvolvimento de câncer de mama”.

 

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