Neste mês de outubro, dedicado à conscientização sobre o câncer de mama, pesquisadores da UnB revelam o resultado de um estudo que associa o consumo de alimentos ultraprocessados ao avanço da doença. A pesquisa pré-clínica, feita em animais antes de testes em pessoas, começou em 2020 e é conduzida pela equipe do Laboratório de Imunologia e Inflamação (Limi), ligado ao Instituto de Ciências Biológicas (IB/UnB).
Os ultraprocessados, diferentemente dos alimentos apenas processados, como conservas e queijos, são feitos em várias etapas e com ingredientes derivados de alimentos (geralmente levam cinco ou mais, como açúcares e óleos) e aditivos químicos (corantes, aromatizantes, emulsificantes, entre outros).
Para avaliar os efeitos no metabolismo e no desenvolvimento do tumor, a equipe analisou inicialmente a microbiota (conjunto de bactérias que vivem no intestino) de camundongos de laboratório, seguindo as normas da Comissão de Ética no Uso de Animais. Depois, pegou vários tipos de alimentos ultraprocessados, como biscoito recheado, salsicha e salgadinhos tipo chips, triturou e preparou uma ração para alimentar os animais. A dieta foi mantida por três meses.
Ao final do período, os pesquisadores observaram que os animais desenvolveram obesidade e inflamações. “Os camundongos ficaram obesos e estamos caracterizando todos os danos que essa dieta causa, como gordura no fígado, neuroinflamação, inflamação no intestino, além de outros efeitos que a gente já conhece, como o aumento do colesterol e dos triglicerídeos. Fica tudo desregulado e inflamado”, explica a coordenadora do estudo, a professora do IB Kelly Grace Magalhães.
Posteriormente, células do câncer de mama triplo-negativo, que não responde a tratamentos hormonais, foram injetadas nos camundongos para comparar o desenvolvimento tumoral entre o grupo alimentado com ultraprocessados e um grupo de controle, que recebeu uma dieta padrão balanceada.
“Os animais que receberam a dieta de ultraprocessados apresentaram pior desenvolvimento do câncer em vários aspectos. As células ficaram mais agressivas. O câncer ficou com pior prognóstico e os animais, com sobrevida menor. Os ultraprocessados propiciaram uma piora no câncer de mama nos aspectos avaliados”, afirma a pesquisadora.
NOVAS PESQUISAS – Esses resultados ajudam a compreender a relação entre obesidade e alterações metabólicas e a evolução do tumor. Segundo Sarah Pinho Bezerra, doutoranda do Programa de Pós-Graduação em Biologia Molecular da UnB e integrante do Limi, o objetivo é entender não apenas o papel da obesidade, mas também como a qualidade e o padrão da alimentação podem contribuir para alterações metabólicas e imunológicas capazes de modificar o comportamento do tumor.
O trabalho está em fase final de preparação para publicação científica e terá continuidade. “Queremos ir além dessa associação e caracterizar de forma mais ampla os efeitos dessa dieta rica em ultraprocessados. Além disso, ainda estamos investigando de que maneiras essas alterações podem influenciar a resposta ao tratamento, especialmente a imunoterapia”, conta Sarah.
Por ser um estudo em animais, os resultados ainda não podem ser aplicados diretamente a pessoas, mas ajudam a indicar caminhos para novas pesquisas. A coordenadora Kelly Grace afirma ter a intenção de comparar o agravamento do câncer de mama em pessoas que consomem uma dieta rica em ultraprocessados e em pessoas que seguem uma dieta mediterrânea, que é baseada no consumo abundante de alimentos de origem vegetal (frutas, verduras, legumes, grãos e azeite de oliva) e de peixes e frutos do mar.
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CONHEÇA – O Laboratório de Imunologia e Inflamação (Limi) desenvolve diversas pesquisas sobre cânceres femininos. “Nosso grupo trabalha com câncer há muitos anos, desde 2012. O carro-chefe são os tumores femininos, como os de mama, colo do útero, ovário e endométrio, embora também estudemos tumores de pâncreas e intestino”, ressalta Kelly Grace.
A equipe é multidisciplinar, composta por 18 integrantes de várias áreas, incluindo alunos de graduação, pós-graduação e oncologistas. “Diversas especialidades unidas para que a gente tenha um olhar diversificado para a pesquisa translacional”, afirma a docente. A pesquisa translacional busca transformar descobertas de laboratório em benefícios para os pacientes.
A professora afirma que o compromisso da equipe é retribuir à sociedade o conhecimento desenvolvido, especialmente às mulheres em situação de vulnerabilidade que enfrentam dificuldades de acesso a exames e tratamentos. “Realizamos também ações de extensão nas comunidades para conscientizar sobre a importância do diagnóstico precoce do câncer de mama, que ainda é muitas vezes descoberto tardiamente.”
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