Docente da FUP, Eduardo Bessa participa do estudo internacional. Descoberta resulta em orientações mais certeiras para aquicultura, aquarismo e conservação

Pierluigi Carbonara

 

Peixes do mundo todo começam a apresentar um forte aumento nos hormônios de estresse quando o oxigênio na água cai abaixo de 9-24% da saturação do ar, segundo um novo estudo internacional que analisou dados de 69 artigos científicos. Os resultados ajudam a definir, pela primeira vez, um limite geral de oxigênio que sinaliza quando os peixes começam a sofrer. Esta é uma descoberta fundamental para piscicultores, aquariofilistas e ambientalistas que enfrentam eventos cada vez mais frequentes de perda de oxigênio.

 

O estudo, liderado por Sébastien Alfonso, da Autorité de Sûreté Nucléaire et de Radioprotection (ASNR, França), utilizou uma meta-análise filogenética, uma abordagem estatística que combina resultados entre espécies levando em conta seu parentesco evolutivo. Esse método permitiu à equipe contornar resultados conflitantes presentes na literatura científica.

 

“Quando a literatura científica é inconclusiva, com alguns estudos apontando para uma direção e outros mostrando resultados opostos, uma meta-análise pode ser útil para colocar todos os resultados em perspectiva e criar um panorama geral”, explica o professor da Faculdade UnB Planaltina (FUP) Eduardo Bessa, coautor da pesquisa.

Fazendas de peixes automatizadas podem apresentar falhas e parar de bombear ar ou superalimentar os peixes; ambas as situações tendem a causar hipóxia e prejudicar o crescimento dos peixes devido ao estresse. Foto: Benjamin Geffroy

 

Para Sébastien, a pergunta de pesquisa tinha um toque pessoal. “Quando eu era criança, praticava caratê. Durante uma luta, levei um chute no plexo solar e fiquei sem ar. Ainda me lembro de ter pensado que ia morrer!”

 

Esse momento de pânico reflete o que os peixes vivenciam quando o oxigênio cai repentinamente, uma forma de falta de ar ambiental que dispara um pico de hormônios de estresse nos peixes.

 

IMPORTÂNCIA DO ESTUDO – As zonas pobres em oxigênio, conhecidas como áreas hipóxicas, estão se expandindo em rios, lagos e oceanos devido à poluição, ao aquecimento das águas e às mudanças climáticas. Peixes expostos à hipóxia podem parar de se alimentar, parar de crescer, ficar mais vulneráveis a doenças ou até morrer.

 

No entanto, os cientistas há muito discordavam sobre o nível exato de oxigênio que dispara uma resposta de estresse. Diferentes espécies, condições experimentais e métodos de medição produziam resultados inconsistentes. Ao reunir dados de 36 espécies, do salmão à tilápia, o novo estudo oferece a resposta mais clara até agora.

 

Os pesquisadores também constataram que a resposta de estresse à hipóxia pode diminuir com a duração da exposição, indicando que os peixes podem se habituar. Surpreendentemente, nenhuma característica específica de espécie, como formato do corpo, habitat ou estágio de vida, previu de forma confiável as diferenças nos limiares de estresse.

 

IMPLICAÇÕES PRÁTICAS – As piscicultoras devem manter o oxigênio acima do limiar de 9-24% para reduzir o estresse, melhorar o crescimento e diminuir a mortalidade, especialmente durante ondas de calor, quando o oxigênio cai naturalmente.

Tanques de tilápia ao ar livre, expostos ao sol, podem atingir altas temperaturas e densidades de peixes, reduzindo os níveis de oxigênio dissolvido e expondo os peixes a estresse induzido por hipóxia. Foto: Eduardo Bessa

 

Durante o transporte, os peixes costumam ficar confinados em pequenos volumes de água, onde o oxigênio pode cair rapidamente. O novo limiar oferece uma orientação clara para sistemas de oxigenação e duração do transporte.

 

À medida que as mudanças climáticas expandem as zonas hipóxicas, esse limiar ajuda a prever quando populações naturais de peixes podem enfrentar estresse, redução de aptidão física ou mortalidade em massa. Ele também apoia uma melhor gestão de cursos hídricos poluídos ou sujeitos a aquecimento.

 

Os autores destacam que estudos específicos de cada espécie continuam importantes. Ainda assim, a meta-análise fornece uma referência muito necessária para os tomadores de decisão. O estudo Take my breath away: defining the oxygen saturation threshold for fish cortisol stress response foi publicado pelo Journal of Fish Biology e contou com cinco autores de três países diferentes.

 

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